Amor de Fato

Pedro Mendes é um jovem de dezessete anos de uma família de classe média. É um rapaz com quase um metro e oitenta centímetros, com cabelos quase pretos, levemente cacheados e levemente compridos. Ele quase poderia fazer um pequeno rabo de cavalo, se quisesse. As sobrancelhas são negras e fartas. São marcantes, mas sem exagero. O nariz é reto, clássico e os lábios um pouco finos e bem vermelhos. A pele é muito branca. Primeiro porque Pedro não se expõe muito ao sol, devido a seu estilo de vida sedentário e, depois, pelo insistente cuidado de sua mãe para que esteja sempre blindado por uma farta camada de protetor solar para evitar qualquer problema de pele futuro, conforme orientam os melhores dermatologistas na TV. A compleição do moço é magra, levemente curvada devido ao rápido crescimento dos últimos anos. Nada que uns meses de academia não possam corrigir.

Pedro estuda em um colégio particular de São Paulo e é um bom aluno. Não é excelente, mas está sempre entre os vinte e cinco por cento dos melhores alunos, conforme continuamente divulgado pela escola de abordagem liberal, que acredita que se deva estimular a comparação e a competitividade dos alunos como preparação para a vida adulta. O jovem ainda não decidiu que carreira pretende seguir, mesmo com a aproximação dos exames vestibulares.

O rapaz é um bom filho. Não dá trabalho. A coisa na vida que Pedro mais gosta é jogar Counter Strike. Ele possui um computador rápido, com placa de vídeo de alta performance, um mouse profissional e um head set de primeira linha. Tudo proporcionado por um casal de pais que trabalham como executivos em empresas privadas. Assim que chega da escola, engole um almoço e vai para o quarto jogar por horas com seus companheiros virtuais, alguns dos quais ele nem conhece pessoalmente. Durante aquelas horas diárias, esquecido de si mesmo, imerso naquele universo virtual de bombas, armas, estratégias, desafio, emoção, Pedro sente que são os melhores momentos de sua vida, de resto monótona e entediante.

Seu prazer é tão grande e sua dedicação é tão intensa, que, por vezes, esquece de compromissos, de se alimentar e até de ir ao banheiro. Seu nome no grupo de jogadores é AK Monster, Pedro é respeitado como um jogador de ponta e se identifica muito com o papel de entry, que é aquele que primeiro ataca a defesa inimiga. É um entry arrojado e habilidoso. Os jogos são disputados até que uma equipe vença dezesseis rounds e levam horas para terminar, às vezes com muitos rounds de tie brake, de modo que o jogador fica online todo esse tempo sem poder e sem desejar abandonar o computador.

Um certo dia, Pedro estava jogando, como de costume, totalmente concentrado, atento, vibrando com cada movimento, cada head shot, cada vitória, completamente esquecido de si e de sua vida normal de adolescente, de resto sem graça e sem emoção. O Jogo é online e não pode parar. Seu grupo depende de você. De repente, Fernanda, a empregada de muitos anos da família, bate à porta aflita e grita que sua mãe havia sofrido um acidente. Pedro, de tão concentrado, com seus reflexos muito ativos, continuou a se deslocar no jogo, arremessando granadas e atirando nos adversários com a melhor técnica possível. Transcorrido quase um minuto de silêncio e como Fernanda estivesse realmente aflita, ela decidiu abrir a porta e dizer alto e claramente: “Pedro, sua mãe sofreu um acidente grave, acho que morreu!”. Pedro então se volta rapidamente para Fernanda e diz: “Eu já ouvi! Eu tenho só dez segundos para desarmar essa bomba. Não dá para esperar?”

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