Amor Romântico vs Amor Antigo

O amor é aquilo que nos torna verdadeiramente humanos (sem amor, eu nada seria), mas se tornou uma enorme fonte de ansiedade e sofrimento. Principalmente porque sempre parece que não estamos experimentando o amor como “deveríamos”. A nossa cultura adora uma hegemonia e é altamente prescritiva neste assunto. Ela sugere que para termos um amor “verdadeiro” todos devemos estar em um relacionamento sexual, devemos estar sempre estimulados com a presença do parceiro, devemos desejar vê-lo sempre, devemos desejar abraçá-lo, beijá-lo, e, acima de tudo, devemos desejar fazer amor com ele, de preferência todos os dias. Em outras palavras, devemos seguir um script de amor romântico desenvolvido na idade média e aprimorado pela nossa cultura. Devemos viver este êxtase romântico por toda a vida, se não, não estamos vivendo o verdadeiro amor.

Talvez isso seja belo na teoria, mas na prática é uma prisão e uma punição.  Se formos definir o amor e a ideia de normalidade dessa forma, então grande parte de nós terá que admitir para si mesmo (com uma certa vergonha) que não sabemos muito sobre o amor e, logo, não somos pessoas decentes, sãs ou normais. Nós criamos um culto de amor que foge completamente de qualquer experiência real de relacionamentos.

Para nos ajudar a entender melhor essa questão, podemos pedir ajuda aos gregos antigos. Muito antes dessa ditadura do amor romântico, os gregos perceberam que há muitas formas de amor, cada um com suas virtudes e mais adequado a uma fase da mossa vida e uma sociedade que entende este fato deveria usar um vocabulário adequado para cada tipo de afeto do nosso coração. Nós perdemos precisão quando chamamos tudo de amor e tentamos encontrar um conceito que dê conta de fenômenos tão diversos.

Para os gregos, cada um dos aspectos do que chamamos de amor é legítimo e tem um nome específico. Os intensos sentimentos físicos que nós geralmente experimentamos no início de um relacionamento são designados pela palavra “Eros”(ἔρως). Mas eles sabiam que o amor não acabava quando esta intensidade sexual diminuía, como quase sempre diminui depois de um ano ou dois de relacionamento. Nossos sentimentos então evoluem para outra espécie de amor, para a qual eles usaram a palavra ‘philia’ (φιλία), que geralmente é traduzida como “amizade”. Não nosso conceito de amizade, mas um conceito muito mais sólido, leal. Uma pessoa poderia morrer por philia, doar um rim etc. Aristóteles sugere que devemos evoluir de eros, mais próprio da juventude para philos nas nossas relações adultas, principalmente o casamento. Assim, podemos compreender que podemos ter uma relação saudável, mesmo quando estamos numa fase em que nosso vocabulário de uma só palavra de amor romântico falha e nos daria a impressão de fracasso.

Os Gregos têm ainda uma terceira palavra para o amor: ágape (ἀγάπη), que pode ser traduzido como amor caridoso (caritas ou caridade). É o que sentimos por alguém que se comporta mal ou venha a sofrer falhas de caráter, mas por quem ainda sentimos compaixão. É o tipo de amor que sentimos diante das fraquezas de uma pessoa e não de suas virtudes. Era o sentimento que o público tinha por um personagem trágico, tal como Édipo. É o tipo de amor que Jesus e os apóstolos sentia pelas pessoas. Assim, amor não é só sobre admiração e virtudes, é também sobre simpatia e generosidade para o que é frágil e imperfeito em nós.

Com esses três conceitos, eros, philia e ágape, podemos ampliar nossa compreensão do que é realmente o amor e, talvez, possamos perceber que temos muito mais amor em nossas vidas do que a noção pasteurizada difundida em nossa cultura monolítica nos faz crer e, quem sabe, possamos ficar menos ansiosos com essa questão e amemos em paz.

Baseado em um vídeo de School of Life

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