Comer a Casca, Jogar a Banana

 

De Volta aos Fundamentos.

Pensar em ética como se anda fazendo hoje é como jogar fora a banana e comer a casca. Talvez por isso, por muito que se fale, nada muda.

A maioria das pessoas, hoje, pensa em ética como sendo não roubar, não prejudicar os demais, fazer o que é certo. Quem deseja ser ético deve seguir uma série de regras e convenções, tais como os dez mandamentos. Acontece que houve, há e haverá grande dificuldade em se chegar a um único conjunto de regras que seja aceito por todos. E, mesmo que se chegasse a um conjunto de regras universalmente aceito, as pessoas vivem encontrando exceções às regras. Uma mãe que se acredita ética, mas está aflita procurando uma vaga para a filha na escola próxima de casa, estará disposta a dar algum presente ou agrado ao funcionário (ir)responsável pela seleção dos alunos para a matrícula. Provavelmente dirá que é um mal necessário a fim de evitar o trabalho e os gastos com transporte, caso a filha fosse enviada a uma escola mais distante.

O que não se percebe com isso é que essa atitude, tão comum no Brasil, corta pelas raízes tanto a ética, quanto a política, pois, fazendo essas concessões, enfraquecemos nosso caráter e, resolvendo as questões de modo individual por meio de ações antiéticas, deixamos de lutar por melhorias coletivas, perdendo mesmo a essência do que seja a política no sentido mais profundo.

Originalmente, ética referia-se a viver bem. Um sapo não pode viver em uma terra seca, um cavalo não pode viver em um lugar montanhoso e pedregoso, nem um urso panda onde não haja bambu. Da mesma forma, podemos pensar no que seja viver bem para o ser humano. Os primeiros filósofos e legisladores tinham como preocupação descobrir a melhor maneira de se viver para o homem. A ética e a política nascem dessa busca pelo que é bom, tanto individual, como coletivamente, para o ser humano.

Logicamente houve grande dificuldade e muitas divergências sobre como determinar o que é bom e o que seja o bem para todos, mas não é disso que quero falar.

O que quero discutir é um aspecto mais profundo dessa questão ética, tanto que quase se conecta com a psicologia. Existem pessoas, quer seja por questões naturais, quer seja pela formação, as quais não possuem consciência ética. Infelizmente, para esses casos, não há argumento possível e o caso é de polícia. A grande maioria de nós, porém, possui consciência moral e é capaz de perceber que existem ações corretas e ações incorretas, mas isso ainda é a casca da banana.

Viver bem, para a grande maioria de nós, em um sentido profundo, está ligado à felicidade, à paz, à tranquilidade da alma. Por outro lado, o nosso modo de vida atual proporciona grandes doses de estresse, insatisfação de desejos e frustração. Ora, viver nesse estado está nos tornando doentes, tanto mental, como fisicamente. A doença mais prevalente hoje é a depressão, e os ansiolíticos e fluoxetinas são os medicamentos mais vendidos. Todos sabemos que devemos mudar nosso modo de vida, mas vivemos na casca da banana e compramos muitos livros de autoajuda para tentar descobrir algumas poucas regras milagrosas a seguir e nos tornarmos ricos e felizes. Não está funcionando.

Falta-nos em geral uma educação, uma formação ética mais sólida. Desde cedo somos expostos à mídia, aulas de inglês, matemática, português, os avanços da ciência (que também promete a solução de todos os problemas) e não somos convidados a explorar o nosso próprio ser.

O que acontece conosco quando agimos mal? (aqueles de nós que temos consciência moral). Digamos que eu esteja em uma fila numa agência lotérica e a fila está grande. Imediatamente perco minha paz e passo a imaginar como me livrar daquilo. Em um minuto percebo que há alguém que conheço bem mais próximo de ser chamado. Minha angústia aumenta. Será que peço para meu amigo pagar minha conta? As pessoas podem reclamar. O tempo passa. Meu amigo está prestes a ser chamado e minha oportunidade se perderá. Quando minha angústia atinge um nível insuportável, passo por cima de meus pudores, avanço na fila, cumprimento meu amigo o mais calorosamente possível e peço para que ele pague minha conta. Todos ficam desconfortáveis, eu, meu amigo e as pessoas na fila.

Diariamente somos conduzidos inconscientemente por desejos, angústias, ansiedades e nunca somos educados a prestar atenção a esses processos. Somos, antes, treinados a não ver, a nos defender e, quando confrontados, tendemos a encontrar uma explicação qualquer de que aquilo, no meu caso especifico era realmente necessário.

A rigor, o que temos é inconsciência, fraqueza de espírito e racionalização. Essa é a polpa da banana. Na casca, por mais que eu conheça as regras, por mais que eu desejasse ser ético, não possuo atenção e força para me conduzir em verdade de acordo com os propósitos iniciais. Sou conduzido por medos, desejos, ansiedades e isso acontece porque não conhecemos a nós mesmos, os processos que ocorrem dentro de nossa alma. Nunca fomos educados para isso.

Se eu tenho plena consciência de que não posso me apropriar de um objeto esquecido por alguém, por exemplo, uma caneta ou fone de ouvido, sem que ocorra em mim um potente processo de desejo, avidez e de negação da consciência do erro dessa ação, essa própria consciência encaminha a questão das causas dessa avidez, da influência gigantesca do desejo sobre mim (fato muito explorado pela propaganda) e, mesmo que eu ceda uma vez ou outra, e siga pelo acostamento quando o tráfego para, isso será motivo para buscar mais aprofundamento, mais conhecimento sobre porque precisei ceder.

Se formos educados a fazer essa meditação desde jovens, estaremos saindo da casca e entrando na polpa, estaremos deixando de ser conduzidos e passaremos a conduzir nossas vidas. A ética, em sua mais profunda base, requer que saibamos de nós, que, diante de uma tentação, de um desejo de possuir, de um medo de perder, tenhamos segurança para abrir mão do objeto, tenhamos compreensão da ilusão de se buscar segurança na posse, e na questão do tempo.

A partir da correta compreensão dos processos que nos movem na polpa, naturalmente seremos mais livres na casca e nossa conduta será mais ética, fazendo nossa vida mais feliz.

Isso não aconteceu e não parece que acontecerá de fora para dentro, através de pressões, discussões, debates, coação. Nem também através do uso de drogas, legais ou ilegais.

Seremos éticos e felizes quando fizermos a coisa certa de dentro para fora.

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