Ética dos Veículos Autoguiados

O Brasil é o país com maior número de mortes no trânsito. Em 2016 foram mais de quarenta mil vidas perdidas, fora aquelas que ficaram com sequelas. Isso torna uma obrigação moral lutarmos pela implantação, o mais rápido possível, dos veículos autoguiados.

Fala-se que os veículos autoguiados não são totalmente seguros e que é necessário algum desenvolvimento antes de colocá-los nas ruas. Acontece que partimos de uma situação em que ocorrem mortes no trânsito mais do que em uma guerra civil. Mesmo que os veículos autônomos fossem responsáveis por vinte mil mortes por ano, estaríamos reduzindo o problema pela metade.

Uma das falácias que estudamos em meus cursos de lógica no curso de administração é a exigência de perfeição. Essa falácia ocorre quando rejeitamos um argumento apenas porque ele apresenta algumas pequenas falhas ou efeitos colaterais. Um exemplo seria afirmar que não devemos fazer quimioterapia, pois provoca mal-estar, queda de cabelos e outros efeitos colaterais.

Assim, afirma-se que os veículos autoguiados não devem ser colocados nas ruas, pois não são cem por cento seguros e poderiam causar acidentes. O raciocínio correto é se eles são mais seguros que os humanos. Afinal mais de oitenta por cento dos acidentes de trânsito são causados por imprudência do motorista.

Desse modo, tanto a lógica como a ética nos conduzem a apoiar fortemente a implantação imediata dos veículos autoguiados sempre que eles possam reduzir o número de acidentes fatais. É uma questão humanitária. Além disso, o brasileiro passa cerca de oito anos no trânsito, se estressando e se acidentando. Oito anos seriam suficientes para algumas graduações em cursos a distância ou tempo para trabalhar enquanto seu carro o conduz para o trabalho ou para a escola.

As únicas questões éticas que você realmente deveria estar se preparando para responder é como esses veículos deveriam se comportar em situações de emergência. Digamos que você esteja numa estrada com tráfego intenso e o caminhão que vai à sua frente deixa cair parte da carga de modo que não há como frear e evitar a colisão com essa carga. Quando um ser humano está ao volante, instintivamente irá desviar para a esquerda ou direita e, talvez, colidir com um veículo que esteja a seu lado. Pode mesmo ser uma moto, podendo ferir outros motoristas na tentativa de salvar a própria pele. Mas isso nunca é premeditado e faz parte do acidente. Não tem, portanto, impacto moral.

No caso de um veículo autoguiado, a situação é diferente. Algum programador irá decidir de antemão quais são os critérios a adotar em casos de emergência e isso tem implicações éticas. Deveríamos programar o veículo para minimizar os danos? Mesmo que isso signifique aceitar danos ao próprio veículo e seus passageiros? Ou o veículo deveria procurar se proteger e a seus passageiros, mesmo envolvendo outras pessoas?

Digamos que para o lado esquerdo está um motociclista sem capacete e para o lado direito está um motociclista com capacete. Se desvarios para a esquerda, as chances de gravidade nas consequências são maiores. Então programaríamos o veículo para escolher a direita. Mas neste caso, estaríamos prejudicando aquele que anda mais seguro e dentro das normas em detrimento de alguém que se arrisca mais. Deveríamos, então, programar o veículo para desviar para a esquerda e punir aquele que anda menos seguro?

Se você não se preparar para responder a esse tipo de questão, outros irão impor suas próprias respostas, nem sempre com interesses humanitários. Prepare-se, o futuro ético já chegou.

 

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