Ética e Riqueza

Na volta de minha apresentação na Festa das Flores e Morangos no parque Edmundo Zanonni em Atibaia, estava levando um colega de banda até a rodoviária e tive que passar pelo calçadão, no centro da cidade. Reparei que havia, pelo menos, cinco seguranças de grande porte físico, distribuídos em duas esquinas da rua.
Fiz um comentário que meu amigo não entendeu bem e, por isso, estou escrevendo.
Claro que é bom que tenhamos segurança e possamos fazer nossas compras sem sermos assaltados dentro das lojas ou nas ruas. Acontece que, por causa de nossa situação cultural, econômica e de segurança, somos obrigados a investir recursos em atividades que não trazem nenhuma riqueza para o país. Dessa forma, estaremos sempre em desvantagem em relação aos países desenvolvidos.
Certa vez em um curso de ética empresarial na Faat um aluno trouxe uma foto de um carrinho de bebê com uma criança dentro estacionado na porta de uma loja. Ao que tudo indica, a mãe deixou o carrinho na porta da loja e foi fazer alguma compra. A foto viralizou na Internet como sendo um absurdo, uma demonstração de falta de cuidados de uma mãe para com seu filho. Claro, no Brasil essa criança não duraria cinco minutos sem ser sequestrada. Ora, fiz uma pequena pesquisa e descobri que a foto foi tirada na Dinamarca, o país com os maiores índices de ética na sociedade e na política. Acontece que, num país em que a confiança na sociedade é maior que noventa porcento, ninguém imaginaria que uma criança fosse roubada ou agredida por um estranho. Isso é confirmado pelas estatísticas de violência no país. Assim, a fim de não atrapalhar os usuários de uma pequena loja de conveniência, é comum deixar as crianças do lado de fora enquanto se compra rapidamente algum item de última hora para o almoço.
Na Dinamarca, Noruega, Finlândia e outros países desenvolvidos socialmente, não é necessário investir tantos recursos em câmeras de vigilância, seguranças, porteiros, advogados, juízes, polícia, como é o caso no Brasil. Esses recursos e essas pessoas poderiam ser utilizados em atividades que geram riqueza, tais como, construção de máquinas ou programas de computadores, programação de robôs e outros produtos e serviços de alto valor agregado.
Assim, quando vemos uma rua repleta de seguranças, cujos salários e equipamentos (estes provavelmente vindo de países desenvolvidos) custam para a sociedade, devemos pensar que esse dinheiro deveria estar sendo investido em educação, desenvolvimento tecnológico, agricultura limpa, indústria limpa, novos modos de gestão, artes, filosofia etc. Esses seguranças não produzem riqueza, a menos que formos considerar como riqueza sentirmo-nos um pouco mais seguros quando vamos às compras, o que a mãe dinamarquesa não precisa.
O mesmo ocorre quando pagamos o salário de cinco funcionários para aparar a grama na beira de uma estrada com uma tela de nylon espetada em duas barras de aço e duas roçadeiras manuais, fazendo dois quilômetros por dia, enquanto num país rico, paga-se o salário de um funcionário com uma máquina automática que já recolhe a grama e que faz trinta quilômetros por dia.
Gastamos dinheiro em funções que não produzem riqueza. Vendemos commodities a preços baixos e importamos produtos de alto valor agregado. Nossa educação está entre as piores do mundo. As famílias consideram que “olhar carros” na feira é um trabalho. Quosque tandem… ?
Somente uma educação de qualidade por uns vinte anos pode mudar essa situação. Entenda o valor da educação, não somente aquela da escola regular, mas da busca diária por crescimento pessoal e social em todas as áreas.

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