Provocadores e Haters

Estudar filosofia torna quase tudo um pouco mais difícil. Nossa criança interior deseja as coisas simples, aconchegantes, tais como pessoas boas, papai Noel e fadas. Acontece que a não ser na teoria, formulada com base em casos ideais hipotéticos, tal como um sistema isolado, quase nada é simples.

Por exemplo, por que as pessoas se ofendem com o corpo humano? Por que a nudez é pervertida e sexual para muitos? Ora, o corpo é só o corpo. Alguns são belos. A maioria, não. Vá a um clube de nudismo e veja você mesmo. O corpo é arte? Pode ser. A dança, a pintura, a escultura. E as crianças – podem ser expostas à nudez? Os naturalistas e milhares de tribos não veem nenhum problema no fato de crianças nuas conviverem com adultos nus. É uma questão de atitude, de postura, de intenção e não de nudez.

Claro que sempre existe a questão do bom gosto, tão discutida em filosofia. O que faz com que algo seja arte? Claro também que podemos discordar de que uns tantos milhões de Reais, tomados da população por via dos impostos, sejam usados para patrocinar certos eventos de mau gosto, tais como um artista nu para ser manipulado pelo público, roupas sujas ou latinhas de fezes, em vez de serem utilizados em educação e saúde em um país com alta taxa de analfabetismo funcional, alta taxa de natalidade e alta taxa de mortalidade infantil.

Acontece que odiar e se indignar se tornou extremamente frequente, e isso acaba com a saudável discussão e crescimento dos envolvidos. Parece que todos já sabem a verdade, possuem um autoconhecimento pleno e podem dizer uns aos outros o que pode e o que não pode ser feito.

Há uma certa energia na raiva, uma sensação de autoafirmação. A raiva dá um sentido à nossa vida tão vazia. Quando me sinto ofendido, eu estou certo e o outro está errado, e isso me eleva. Então, preciso me escandalizar, preciso fazer textão, pois isso me dá uma sensação de vitalidade, principalmente quando encontro outros haters, que me apoiam.

Assim, os provocadores sentem-se mais vivos ao provocar. São superiores, mais livres, mais vanguarda. Os ofendidos sentem-se mais vivos ao odiar, mandar prender. Que delícia se a polícia manda a borracha! Que realização!

Enquanto não entendermos os mecanismos do desejo que operam em cada um de nós, do desejo de poder, de usar o outro para nossa satisfação, de aquisição sem fim, vamos nos enganando com relação ao amor, à ética e ao sentido de nossa existência. E hoje, numa época em que uma só pessoa pode ferir outras quinhentas em poucos minutos, vamos nos radicalizando e nos identificando com o conflito. Organizamo-nos em seitas, crime organizado, partidos, milícias, nações e raças inteiras, sempre desejando o poder e sempre uns contra os outros.

Somente aquele que pode estar só, que compreendeu o processo universal do desejo, desejo de aquisição, de posse, de segurança, desejo que transforma o outro num objeto de nossa satisfação, somente esse pode compreender o real valor das coisas e, em verdade amar. A sociedade é um espelho do que somos nós. É a soma de todos os nossos relacionamentos, de toda nossa ganância, corrupção. Somente uma revolução total em nós mesmos poderá mudar a sociedade.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *