Sobre Amor e Solidão

Baseado em um vídeo do School of Life sobre a inevitabilidade da solidão.

Não é comum ouvirmos alguém confessar que está solitário. O senso comum nos vende a ideia de que pessoas saudáveis não se sentem isoladas, a menos que mudem de país ou percam o seu amado. Acontece, porém, que uma alta dose de solidão é uma parte inexorável de sermos seres inteligentes e sensíveis. É uma característica inerente a existências complexas e existem muitas razões para isso.

Uma grande parte daquilo que gostaríamos de compartilhar com os outros seria perturbador para a sociedade em geral. Nossas ideias são estranhas, contraditórias, muito sutis ou alarmantes para serem reveladas com segurança para outra pessoa. Por isso, muitas vezes recorremos a um analista para tratar de assuntos mais complexos de nossa existência. A sociedade é por demais intolerante e hipócrita. No dia a dia, temos que enfrentar a escolha entre a honestidade e a aceitabilidade, mesmo em relações mais íntimas e é compreensível que a maioria escolhe ser aceito a ser honesto.

É preciso muita disposição e até habilidade para ouvir outra pessoa e desenvolver empatia diante de suas experiências e ideias. Não devemos culpar os outros por não conseguir ficar focados em quem somos. Mesmo quando querem nos conhecer, as pessoas tenderão a manter suas próprias vidas no centro da conversa.

Um pensamento antigo diz que morrermos sós. Nem mesmo nossos esposos ou filhos irão conosco. A nossa dor é sentida só. Os outros podem até nos dizer palavras de conforto ou encorajamento, mas, com relação aos nossos sentimentos, estaremos no meio do oceano nos afogando entre as ondas, enquanto os outros, por melhores que sejam, estarão na praia acenando e dando sugestões.

Não é provável também que encontremos algum dia alguém que esteja no mesmo momento de vida que nós. Esperamos alguém semelhante em nossas vidas, mas sempre haverá dissonâncias, pois nascemos em épocas diferentes, somos frutos de famílias diferentes, possuímos experiências diversas. Assim, enquanto estamos passeando juntos num parque, olhando o lago com gansos e esperamos ouvir algo profundo e amoroso, a outra pessoa pode estar pensando em algum incômodo banal de sua vida diária ou vice-versa.

É quase cômico observar que é muito improvável que venhamos a conhecer as pessoas que mais se qualificam para nos entender. Elas existem, mas podem ter caminhado ao nosso lado, ter sentado no mesmo banco e nenhum de nós tivemos a menor ideia do potencial de conexão que havia ali. Outros podem morar no Japão, já podem ter morrido ou ainda nem nasceram. É uma condição humana. Precisamos de alguma sorte para esse encontro e a situação com certeza piora à medida em que somos mais introspectivos, mais sensíveis. Simplesmente haverá menos pessoas como nós por perto. Não tem nada a ver com romance. A solidão é um preço que temos que pagar pela complexidade da nossa mente.

Nesses dias, a necessidade de tirar a roupa e ter prazer é mais urgente que o desejo por uma boa conversa e, assim, acabamos presos a relacionamentos com pessoas com as quais não temos muito o que conversar e compartilhar simplesmente porque ficamos fatalmente atraídos por curvas ou a cor dos olhos de alguém.

O grande escritor Goethe, que tinha muitos amigos, no seu último suspiro, cercado por alguns deles disse que ninguém jamais o compreendeu propriamente e que ele jamais havia compreendido ninguém completamente e ninguém entende ninguém. Esso foi um Importante desabafo de um grande homem e é útil para nós.

Não é nossa culpa esse grau de distância e incompreensão mútua. Não é um sinal de que a vida deu errado. É o que deveríamos saber desde o início e, se assim fazemos, podemos colher alguns benefícios. Uma vez que aceitamos a solidão podemos ser mais criativos, enviar mensagens ao mundo, podemos cantar, escrever poesia, produzir livros e blogs e outras atividades que nascem da percepção de que as pessoas ao nosso redor nunca conseguirão nos entender completamente, mas outros, distantes no tempo e no espaço, podem conseguir. Do mesmo modo que podemos ter contato com um poeta do primeiro século ou ouvir a música de um cantor que descreve exatamente nossa tristeza em uma balada dos anos oitenta.

A solidão nos torna mais capazes de uma verdadeira intimidade se oportunidades melhores surgem. Melhora o contato que temos conosco mesmos, nos dá caráter. Não ficamos apenas repetindo o que todos pensam. Desenvolvemos nossos próprios pontos de vista. Podemos estar isolados por um tempo, mas seremos mais capazes de vínculos mais próximos e mais interessantes com as pessoas que eventualmente encontrarmos.

A solidão até nos torna mais elegantes, misteriosos, sedutores. Sugere que há mais sobre nós a ser descoberto e compreendido do que os padrões normais de relações sociais costumam acomodar. Não precisamos nos envergonhar de nossa solidão. Podemos até nos orgulhar dela.

Em geral nos impedidos de experimentar o sentimento de solidão por medo, por termos sido ensinados que isso não é bom, que temos que ser populares. Mas, quando admitimos nossa solidão e ficamos com ela, só assim ingressados num seleto clube que inclui as pessoas que conhecemos através das pinturas de Van Gogh, dos poemas de Baudelaire, das canções de Belchior. Sozinhos, nós fazemos parte de uma longa e grande tradição e estamos, surpreendentemente em grande companhia.

Apreciar a solidão é invariavelmente melhor do que sofrer com compromissos de falsa comunidade. A solidão é simplesmente um preço que talvez tenhamos que pagar por manter uma visão sincera e ambiciosa do que o companheirismo deve e poderia ser.

Krishnamurti nos diz que somente aquele que é capaz de ficar só pode realmente amar. Se estamos em uma relação com medo de ficarmos sós, isso é um tipo de uso e nunca pode ser amor.

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