Técnica x Ética

Esses dias, um importante colunista de um dos maiores portais de notícias do Brasil e que escreve sobre oratória estava ensinando a argumentar.
Entre as “técnicas” propugnadas em seu artigo estava o seguinte:
“Se, ao contrário, os argumentos forem frágeis, inconsistentes, baseados apenas em suposições, exponha-os ao mesmo tempo, em aluvião para que a quantidade possa, quem sabe, compensar a falta de qualidade deles. Quando os argumentos são apresentados sucessivamente, quase ao mesmo tempo, costumam impressionar bem os ouvintes”.
Também:
“Se os argumentos adversários forem todos consistentes, use a coragem, a eloquência, a ousadia para impressionar os ouvintes”
Vocês que frequentaram de meu curso de introdução à lógica vão lembrar que falar várias coisas ao mesmo tempo é um tipo de falácia. Dependendo do que se fala pode ser chamado de cortina de fumaça ou despistar. Também, usar a eloquência em vez de argumentos pode ser um apelo à emoção. Ambos são defeitos na argumentação e é interessante que sejam ensinados por um mestre da oratória.
Eu sou engenheiro químico e poderia ensinar um produtor de leite como mascarar as características de um produto de qualidade duvidosa através de uso de álcalis e biocidas. Eu diria: “se seu leite estiver em algum grau fermentado, adicione um pouco de soda cáustica para ajustar o pH e um pouco de água oxigenada para eliminar as bactérias”
Às vezes, em nossa profissão, damos tal ênfase na eficiência, no resultado, na eficácia, que esquecemos uma questão fundamental: Isso é ético? Quais os valores que estão por trás disso? Qual o sentido desse ato?
No meu curso de ética eu sempre apresentava as questões básicas do código de ética da 3M para quando você estiver em dúvida sobre uma ação qualquer:
Essa ação é legal?
Isso está de acordo com nossos valores?
Se você fizer isso, você vai se sentir mal?
Como será se for parar nos jornais?
Se você sabe que está errado, não faça isso!
Se você não tiver certeza, pergunte.
Continue perguntando até você receber uma resposta.
Parece que ensinar a manipular o ouvinte não pareceu estranho a esse professor, nem mesmo na questão de vir a aparecer nos jornais.

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